Uma amiga psicóloga disse-me que
eu adoro a dor, que tenho a capacidade de a transformar e valorizar sempre
positivamente. E pediu-me para pensar na quantidade de vezes que digo coisas
como "adoro cicatrizes" ou aconselhando alguém digo "Como não
queres sofrer?!? Somos tão jovens, temos imensas quedas e dores pela frente! Vai
ser incrivel!".
E notei que ela tem mesmo razão.
Faz-me confusão quando vejo
pessoas em situações penosas, em ciclos viciosos só porque terminar com aquilo
vai custar, vai doer. E depois? A dor é positiva. A dor faz crescer, trás
memórias, abre horizontes. Não querer sofrer é como não querer viver. Não que a
vida seja um eterno sofrimento mas viver, viver de verdade, significa entrega.
E quem se entrega a sério, sem reservas, alguma vez se estilhaça.
Afinal, só sofre por amor quem
amou sem reservas. Só sente medo quem arriscou à grande. Só dói, quando
tentamos.
Ah e tal em caso de dúvida fico
quieto que é para não dar merda. Essa, meus amigos, é a merda maior. Ficar
quieto? Claro. E chegamos a velhos sem memórias, sem sentir o sabor de nada.
Eu afirmo-me sempre como alguém
sem arrependimentos e quero morrer assim. Se há coisas na minha vida que
deveria ter evitado, lidado de outro modo ou mais valia não ter-me metido
nelas? Claro. Mas de algo serviu a experiencia, certamente. Só isso já valoriza
os actos.
Que venham muitos e muitos anos
de quedas, de medos, de coisas intensas que me obriguem a agir, a acordar.
E que dentro de umas décadas
tenha umas magnificas rugas e saiba amar cada cicatriz em mim.
















