Vi este pedaço de
jornal a circular em vários blogs.
Todos falam do enorme
amor que o Miguel Esteves Cardoso transparece pela sua esposa. Mas não é só
isso. A mim, este texto parece-me o testemunho de alguém resignado com um
poderoso carrasco, a tentar acomodar-se à situação de vítima, de assistente da
morte, assimilando que nada há a fazer perante tão manipulador adversário.
Acham que o cancro é
mau? Que mata muita gente? Experimentem carregá-lo nas veias.
Sim, porque eu tenho-o
como herança genética. Há quem receba casas, belas herdades e uma conta choruda
da tia-avó velhota que morreu podre de rica. Mas eu não, a mim calhou-me uma
herança especial, uma prenda que passa de geração em geração no sangue.
Felizmente, ainda não
me aconteceu nada. Mas existem fortes probabilidades de um dia ter uma amarga
surpresa.
A minha família
pertence a uma área de estudo do IPO, designada de “Famílias de Risco”. Basicamente,
consiste em estudar geneticamente famílias que apresentem aspectos estranhos
relacionados com cancro. A minha família materna é um assombro nessa área. As irmãs
do meu avô já morreram todas de cancro menos uma. E a que está viva teve cancro
duas vezes.
Grande parte das
sobrinhas do meu avô também já morreram, jovens, da mesma sina.
Os filhos do meu avô? A
minha mãe, felizmente, ainda não teve nada. Mas a sua irmã mais velha, minha
madrinha, teve cancro da mama o ano passado. Foi operada, recuperou bem,
pensávamos até que já estivesse livre de perigo. Mas o mês passado foi ao
médico e descobriram-lhe umas manchas suspeitas no fígado. Recomeçará os exames.
Há 2 anos outro tio,
irmão mais novo da minha mãe, com apenas 16 anos, teve também cancro. Algo na
zona do pescoço. Esse, incrivelmente, salvou-se.
Netos do meu avô? Até à
data, só um recebeu a herança. O meu irmão. Tinha 16 quando lhe foi
diagnosticado. Morreu aos 18. Cancro ósseo na anca.
E a cereja no topo do
bolo: o IPO desconfia que a minha família gerou uma mutação no gene do cancro e
que poderemos ter variedades raras e desconhecidas da doença. Só coisas boas!
A minha família paterna
também tem dezenas de casos. Também deveria ser estudada. Mas ninguém se
preocupada, são demasiado inconscientes e egoístas para tal. O que faz com que,
dessa parte, nem saiba bem o tamanho da herança que carrego.
Eu? Não sou obcecada
com o tema, como alguns membros da minha família. Mas também não descuro nem
sou desleixada. Faço revisões de 6 em 6 meses às mamas e uma vez ao ano faço o
rastreio do colo do útero.
Tenho 7 nódulos no
peito. Não me aflige. Por vezes sinto que é uma bomba relógio, que qualquer dia
me dirão que degeneraram, que terei de passar por tratamentos horríveis. Mas
para já, mantenho a calma, faço os exames de bom grado e mantenho-me vigilante
e atenta.
Aliás, estou sempre
desejosa que chegue o dia do rastreio. Prefiro saber como está tudo. Dá-me uma
falsa sensação de controlo.
Amanhã é dia de
mamografia. Wish me luck.