sexta-feira, 4 de maio de 2012

Não és tu, sou eu, querido

8 meses?
8 meses?!?
Não achas que já é uma relação demasiadamente longa?
Esta noite acabo contigo!



Ando há 8 meses a enrolar-te.
Comprei-te naquele belo mês de Agosto numa livraria inglesa em Marbella.
És bom, a sério que sim!
Mas entretive-me com este:


Este menino tem 800 páginas e dá trabalho e pronto. Descurei das minhas obrigações.
Perdoas-me?
Hoje prometo, pelo menos tentar, terminar-te, levar-te à exaustão e acabar contigo com satisfação.

Coincidências

Esta manhã, antes de ir para Lisboa apanhar o avião, o João veio tomar café comigo.
Entramos no carro, ele ligou o rádio e estava a tocar esta música:



Que coincidência!


Entramos num café e… o que estava a tocar?



Além da mensagem óbvia, esta é a nossa música. Aquela. A especial.
Senti-me reconfortada.


“A porta fechou-se contigo
Levaste na noite o meu chão
E agora neste quarto vazio
Não sei que outras sombras virão

E alguam ao longe me diz
Há um perfume que ficou na escada
E na TV o teu canal está aberto
Desenhos de corpos na cama fechada

São um mapa de um passado deserto
Eu sei que houve um tempo em que tu e eu
Fomos dois pássaros loucos
Voamos pelas ruas que fizemos céu
Somos a pele um do outro

Não desistas de mim
Não te percas agora
Não desistas de mim
A noite ainda demora

Ainda sei de cor o teu ventre
E o vestido rasgado de encanto
A luz da manhã e o teu corpo por dentro
E a pele na pele de quem se quer tanto
Não tenho mais segredos
Escondi-me nos teus dedos
Somos metades iguais
Mas hoje só hoje
Leva-me para onde vais
Que eu quero dizer-te
Não desistas de mim
Não te percas agora
Não desistas de mim
A noite ainda demora

E não desistas de mim
Não te percas agora”

Grandes mulheres e pequenos encostos

A Charlotte, a minha melhor amiga da qual já falei algumas vezes, é licenciada em enfermagem. Como tantos outros jovens, ainda não conseguiu trabalho na sua área.
Cruzou os braços? Anda por aí a chorar?
Não. Começou a fazer bolos e doces e salgados por encomenda. Aproveitou um talento inato, espalhou papelinhos de porta em porta e está a conseguir orientar-se monetariamente.
Uma prima do João, licenciada em química, que casou em Outubro e veio atrás do amor para este fim de mundo sem perspectivas de trabalho, decidiu começar a dar explicações em casa. O marido ganha bastante bem mas ela quis ajudar como soube. Ganha muitíssimo bem por mês.
Admiro estas pessoas. Mesmo desviadas do seu rumo, encontraram forças e levantaram a cabeça.
São heroínas.

Depois, claro, há aqueles espécies rascas que dão má fama à classe feminina.
A irmã do João tem 22 anos, já está casada desde os 20 e quer desesperadamente ser mãe. Tudo para esconder uma juventude triste, sem vida nem amigos. Só sabe estar colada à barra da saia da mãe.
Uma vez disse-me que gostaria de viver em Lisboa. Perguntei-lhe porque não o fazia. Resposta “Porque não preciso, o meu marido ganha bem”.
E por isso assim se mantém, a trabalhar como secretaria na empresa da família em que, porque é família, sentem-se à vontade para só lhe pagar 300€.
Tal facto não lhe faz mossa. Não precisa dos 300€. Tem o marido e a conta bancário do dito cujo.
Também não anda a pé. Mesmo que tenha um supermercado a 15min de casa, não vai se não lhe derem boleia.
Goza com as pessoas gordas. Chamava “pote” á Fanny da Casa dos Segredos. Ora ela é do tamanho da Fanny e mais gorda e atarracada. Ai os telhados de vidro…
O centro de emprego chamou-a para fazer limpezas numa instituição. Disse há família que tinha lá estado 2 semanas e que não se tinha integrado com as colegas. Mas a minha tia que é uma das directoras contou-me a verdade. Ela esteve lá uma manhã e foi-se embora alegando que não estava para lavar o chão. Ela tem o 9ºano. Acha-se importante e com um nível demasiado elevado para fazer limpezas.
Então, Charlotte, como é que tu fazes rissóis?? É uma ofensa para ti enquanto licenciada, não?

Ps: se algum dia atingir este nível de arrogância, baixeza e estupidez e quiser fazer de um homem o meu galho, batam-me. Mas com muita, muita força.

Reles

Ontem fui fazer a ecografia mamária.
Dada a minha herança, é sempre um momento tenso, que me dá algum receio. Por isso, o João foi comigo.
Logo de rajada, a mãezinha dele mandou-lhe a pérola “Então a Raven não tem pés para ir ao hospital? Tens de faltar ao trabalho?”.
1, 2, 3… respira.
Tínhamos acabado de chegar ao hospital e o telefone não parava de tocar. Percebi que algo se passava.
Até que o João, com ar chateado, me diz “Desculpa, amor. Tenho dir senão não se calam. A minha mãe está sem carro e alguém tem dir buscar a minha irmã. Já volto”.
Passo a explicar: a irmã do João é uma dondoca gorda que não dá um passo a pé e trabalha na empresa da família como secretária e todos os dias a mãe a vai buscar e levar. Se não a levarem, recusa-se a ir trabalhar (que são só 25/30min a pé).
O João lá foi, confiante que chegaria a tempo. Mas não foi o que aconteceu. Entrei, fiz o exame sozinha e sai. Quando sai, ele estava à minha espera.
Passei-me! A mãe não queria que ele tirasse folga para ir comigo ao médico mas no fim, a folga serviu para fazer de motorista da irmã.
Ele pediu-me mil desculpas, disse que pensava que conseguia agradar a todos e fazer as duas coisas. Compreendo mas assusta-me. Assusta-me as atitudes desta gentinha. Assusta-me que possam ganhar poder na minha relação. E se isso acontecer, prefiro abrir mão de um amor do que ter um homem que não sabe impor-se e ter os tomates no sitio.
Diz ele que tudo vai mudar, que discutiu com a mãe ao chegar a casa e que eu tenho razão.
Veremos…

Aleatório

Continuo a dormir de pijama polar.
Iniciei uma relação séria com o aquecedor.
Estamos em Maio e é primavera? Sério?
Adoro as minhas meias térmicas.
Cortei o cabelão pelo pescoço, bem curtinho.
Ao quarto dia, fez-se luz e o TDT ressuscitou.
Os meus 7 nódulos cá continuam, de boa saúde. Parece que ainda nenhum se chateou comigo e se vingou. Obrigada.
O João embarca hoje, ás 17h, para França.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Herança

Vi este pedaço de jornal a circular em vários blogs.
Todos falam do enorme amor que o Miguel Esteves Cardoso transparece pela sua esposa. Mas não é só isso. A mim, este texto parece-me o testemunho de alguém resignado com um poderoso carrasco, a tentar acomodar-se à situação de vítima, de assistente da morte, assimilando que nada há a fazer perante tão manipulador adversário.
Acham que o cancro é mau? Que mata muita gente? Experimentem carregá-lo nas veias.
Sim, porque eu tenho-o como herança genética. Há quem receba casas, belas herdades e uma conta choruda da tia-avó velhota que morreu podre de rica. Mas eu não, a mim calhou-me uma herança especial, uma prenda que passa de geração em geração no sangue.
Felizmente, ainda não me aconteceu nada. Mas existem fortes probabilidades de um dia ter uma amarga surpresa.
A minha família pertence a uma área de estudo do IPO, designada de “Famílias de Risco”. Basicamente, consiste em estudar geneticamente famílias que apresentem aspectos estranhos relacionados com cancro. A minha família materna é um assombro nessa área. As irmãs do meu avô já morreram todas de cancro menos uma. E a que está viva teve cancro duas vezes.
Grande parte das sobrinhas do meu avô também já morreram, jovens, da mesma sina.
Os filhos do meu avô? A minha mãe, felizmente, ainda não teve nada. Mas a sua irmã mais velha, minha madrinha, teve cancro da mama o ano passado. Foi operada, recuperou bem, pensávamos até que já estivesse livre de perigo. Mas o mês passado foi ao médico e descobriram-lhe umas manchas suspeitas no fígado. Recomeçará os exames.
Há 2 anos outro tio, irmão mais novo da minha mãe, com apenas 16 anos, teve também cancro. Algo na zona do pescoço. Esse, incrivelmente, salvou-se.
Netos do meu avô? Até à data, só um recebeu a herança. O meu irmão. Tinha 16 quando lhe foi diagnosticado. Morreu aos 18. Cancro ósseo na anca.
E a cereja no topo do bolo: o IPO desconfia que a minha família gerou uma mutação no gene do cancro e que poderemos ter variedades raras e desconhecidas da doença. Só coisas boas!
A minha família paterna também tem dezenas de casos. Também deveria ser estudada. Mas ninguém se preocupada, são demasiado inconscientes e egoístas para tal. O que faz com que, dessa parte, nem saiba bem o tamanho da herança que carrego.
Eu? Não sou obcecada com o tema, como alguns membros da minha família. Mas também não descuro nem sou desleixada. Faço revisões de 6 em 6 meses às mamas e uma vez ao ano faço o rastreio do colo do útero.
Tenho 7 nódulos no peito. Não me aflige. Por vezes sinto que é uma bomba relógio, que qualquer dia me dirão que degeneraram, que terei de passar por tratamentos horríveis. Mas para já, mantenho a calma, faço os exames de bom grado e mantenho-me vigilante e atenta.
Aliás, estou sempre desejosa que chegue o dia do rastreio. Prefiro saber como está tudo. Dá-me uma falsa sensação de controlo.
Amanhã é dia de mamografia. Wish me luck.
O resultado do rastreio do cancro do colo do útero chegou.
Está tudo bem.
Obrigada ao meu anjo da guarda.

Eu, tele-dependente, me confesso

Adoro ler. A sério que sim. Sou uma bibliófila assumida e em recuperação. Mas ler por obrigação, por desespero, porque não existe mais nada a fazer, não tem o mesmo sabor.
Quero a minha televisão de volta, maldito TDT! O bairro todo está sem sinal, a olhar para o tecto. Já há por aqui muita gente a ponderar o suicídio. É bom que resolvam urgentemente o problema.
Terceiro dia sem televisão. Bela merda!
Já se sabia. Coisa nova no nosso país, tinha de dar erro. Palpita-me que ainda acontecerá muito até se tornar totalmente comum e operacional.
Bora lá, terceiro dia a olhar para o tecto.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Conversas #17#

Lá fui fazer o penso e encontrei um enfermeiro diferente, um vizinho meu que ainda nunca me tinha atendido.
E começa-me com uma conversa muita estranha.
 
 
Ele: Ai estás tão grande! Lembro-me de ti em pequena. Não hei-de estar velho!
Eu: Ah mas ainda é novo! Tem o quê? 30 e poucos?
Ele: 41!
Eu: Ah mas está muito bem conservado!
Ele: Então e que fazes agora? Estudas?
Eu: Não. Já estudei. Estive na Universidade a estudar História. Mas por falta de verba fiquei sem terminar o último ano.
Ele: Só te falta o último ano? Então tens de acabar isso! Além do mais, história é complicado, é preciso ter muita cabecinha, inteligência e cultura. Mas não tinhas bolsa?
Eu: Tinha. Mas cortaram-ma no último ano por falta de aproveitamento. É que no meu 3º ano só fiz 2 cadeiras. O meu irmão morreu na época de exames e depois surgiram-me muitas complicações familiares. Mas lá me mantive 1 ano ainda, porque trabalhava.
Ele: Estudavas e trabalhavas?? Tens muito valor. A sério. Acaba o curso. Com essa carinha? És tão gira, depressa arranjas trabalho em alguma câmara.
Eu: Ah obrigada… (já sem jeito) Pois, isto está complicado. E a área de história não é valorizada, não tem saída nenhuma.
Ele: E ires a um concurso? Aquele do elo mais fraco! É bom para ti com essa inteligência. De certeza que vinhas de lá cheia de dinheiro e era uma forma honrada de acabar o curso. Eu inscrevo-te, queres?
Eu: Não, não! Deixe estar. Essa coisa de aparecer não é para mim. Sempre que vejo uma camara fujo logo. Não me sinto muito à vontade com essas coisas, sou muito discreta.
Ele: Cá agora! Vais ao concurso sim! Tenho um pressentimento! Olha, acreditas no destino? Hoje é feriado, eu não era para estar aqui. Tu já andas a fazer penso há 1 semana e nunca me viste nesta sala, pois não? Eu trabalho noutra ala. Hoje surgiu um imprevisto e tive de vir substituir uma colega que chega agora, dentro de 10min. Por isso é um sinal, tínhamos de nos encontrar e eu tinha de ter esta conversa contigo. Pensa em tudo o que te disse e vai ao concurso sim! Quero-te ver na televisão.

Ps: Confesso que fiquei a pensar na conversa… Não na parte de ir a um concurso, obviamente. Mas no episódio em si. Gosto de coisas espontâneas e únicas. Esta vai-me ficar na memória.