quarta-feira, 6 de junho de 2012

Queima

Eu estudei na Muy Nobre e Ilustre Universidade de Évora.
Parece cliché mas vou ter de dizer que a vida de estudante é, de facto, a melhor época da vida de um jovem.
Fui muito praxada, sim senhor. Tanto ao ponto de ganhar o estatuto de Bicho do Ano. Mas fui praxada tendo como único objectivo integrar-me. Nada mais. Não acho que as praxes sejam giras e brutais e tal e coiso. Mas também não acho que sejam sinónimo de estupidez e humilhação. Com bom senso pode ser algo respeitoso e que crie laços.
No entanto, quando cheguei ao 3º ano e tive o direito de praxar, recusei. Não tenho paciência nem me imagino a andar atrás de meninos de 18 anos com batons e berrar-lhes aos ouvidos. Tenham paciência! Como tal, nem me coloquei á disposição de ser escolhida para madrinha nem nada dessas coisas.
O único direito que sempre exerci foi o de trajar. E pouco! Aqueles sapatos arrancam a pele dos calcanhares e em Évora há tantas regras de como vestir, colocar a capa, como calçar, que maquilhagem usar, piercings e afins, que uma pessoa perde a motivação para usar aquela indumentária.
No meio desta parvoíce toda, só existe realmente uma tradição que eu gosto e me emociona. A da queima. A do final de um ciclo.
Évora tem uma tradição muito própria. Cada finalista tem uma colher de pau com 2m, em volta da qual pendura todas as fitas que lhe deram e que foram abençoadas numa missa pela manhã. Depois janta com familiares e amigos e segue para os claustros da centenária Universidade.



Aí, juntamente com o seu padrinho ou a sua madrinha (só pode escolher uma coisa ou outra), vai percorrendo o corredor dos claustros até chegar a uma mesa onde está o Reitor, a Vice e outras individualidades reconhecidas. Cumprimenta-os e bebe um copo de vinho (terrível sacrifício para mim que detesto).
Depois cabe ao padrinho/madrinha queimar a ponta da fita que ofereceu (branca e com 1m) numa tocha colocada ao lado de uma escadaria.
Queimada a fita, o padrinho/madrinha vai embora e o finalista chama 4 pessoas que sejam importantes na sua vida. Essas 4 pessoas irão pegá-lo ao colo, subir uma rampa a correr e atirá-lo a uma piscina.



Esse ritual pretende simbolizar que 4 pessoas de extrema importância te lançarão às águas no fim de um ciclo e sairás de lá para um novo rumo, deixando a academia para trás (o pessoal trajado que está em cima da rampa, na foto, está lá para segurar os amigos, para garantir que nenhum, com o balanço, cai na piscina juntamente com o finalista). Resta ao finalista abraçar os colegas, lançar o grito académico, tirar fotografias e acabou. Nunca mais poderá usar o traje. Quem queima só fica com direito a usar a capa. Nada mais.
É um momento muito emotivo em que sentimos que se termina uma parte de nós.
Posto isto, resta-nos secar e vestir uma roupa normal dizendo adeus à vestimenta académica.
 
 


E se me emocionei quando foi a minha vez e tremi que nem varas verdes e achava que tudo iria correr mal, que iria cair mal na piscina, que partiria a perna, que alguém ao subir a rampa me deixaria cair, imaginem a pilha de nervos em que me encontro agora que fui convidada para ser Madrinha de Queima e levar alguém ao banho pela rampa?!?
E se caiu??? Ai Deus…
A fita já foi pintada, escrita e entregue. Ficou linda!
Também já comprei de propósito uns sapatos rasteiros a pensar na rampa.
Agora resta rezar para que dia 9 corra bem. Já só faltam 3 dias para o regresso àquele dia tão emotivo…

Ps: Sim, as fotos são da minha Queima. Na rampa sou eu ao colo de 4 amigos super importantes (a da flor cor de rosa no cabelo é a Charlotte, a minha BFF) e também sou a gaja do soutien preto a sair da piscina. Que momento!

8 comentários:

  1. Ui que saudades... já faz 3anos que queimei! Pfuu o tempo passa a correr, foi um dia tão feliz, tão emocionante... que saudades!

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  2. Que giro... não conhecia a tradição de Évora. É realmente diferente da nossa aqui em Coimbra mas também me pareceu muito bonita :)

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  3. Desconhecia tal coisa... deve ser mesmo engraçado. :D

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  4. Não fazia ideia que a tradição era assim lá! Espectáculo! Em Coimbra é bonito, mas muito mais formal, o que acaba por tirar alguma piada.

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  5. Que giro, não conhecia. Que saudades!

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  6. rm: sim, vou ser madrinha. O pior é que a moça queima entre as 4h e as 5h da manhã!
    Vou apanhar alta seca porque nem posso ir lorear a pevide, tenho de tar com ela e com os pais (a mãe dela é doente e será uma noite meio arriscada).
    Tu vais à queima?

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  7. Fiquei com pena de não ter vindo aqui entretanto, eu fui à queima sexta e sábado..

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